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| Crédito - Sérgio Magalhães - Dezembro de 1994 |
Por Paula Jenevain Grazinoli
Todo mês de férias era
aquela alegria. Porém, com certeza o dia mais esperado era aquele. Levantava-me
de manhã, já empolgada a ajudar minha mãe na preparação dos quitutes, pois
sabia que logo após o almoço, que seria um pouco mais cedo que o normal, meus
primos e tias estariam nos esperando na Praça da Estação.
Só de encontrar aquela
criançada toda, já era uma festa! Nossa
ansiedade era tamanha, que olhar o relógio da praça era regra. Quanto tempo
será que ainda demoraria o Xangai?
E lá vem ele, sorrindo
pra gente, com movimentos lentos, comparados aos dos veículos costumeiros da
nossa geração. Mas era gostoso esperar ele chegar, crescendo cada vez mais nos
trilhos, com seu barulho alto, parecendo nos convidar para uma aventura, assim
como acontecia nos filmes que assistíamos no cinema Excelsior.
Naquele momento, os
sorrisos dos meus primos se misturavam ao evidente encantamento das minhas
tias. Parecíamos todos crianças. Enquanto os adultos falavam das lembranças que
aquele trem lhes remetia, as crianças corriam para escolher seus lugares nos
bancos dos vagões, virando os encostos para frente e para trás. Aquele encosto
flexível era uma diversão! Só no Xangai dava pra sentar de frente ou de costas
para a direção que o trem seguia.
Quando todos finalmente
se acomodavam, era comum que eu fechasse meus olhos para escutar o barulho do
trem. Entre buzinas e balanços, lá estava eu, com meu vestido da moda do século
XIX, tomando chá em lindas xícaras de porcelana em estilo rococó, com toda a
pompa do Xangai, a caminho da casa da minha amiga Princesa Isabel. “Olha lá,
olá menino!” Eram meus primos acenando da janela para as pessoas da rua,
fazendo-me voltar para a realidade.
E se o caminho era a
diversão, mais feliz ainda todos ficavam ao lembrar que o passeio só estava
começando. Descíamos na estação em frente ao Museu Mariano Procópio e já em
meio as suas lindas árvores, seus simpáticos macaquinhos e seu imponente lago,
achávamos o melhor lugar para estender uma toalha e fazer nosso piquenique. Não
faltavam roscas, biscoitos e bolos embrulhados em pedaços de papel toalha.
Era já comum entre nós,
depois do lanche, brincarmos que éramos parentes da princesa Isabel, e que na
verdade, estávamos indo para sua casa tomar café. Era a casa da Tia Belinha!
Virávamos íntimos daquele lugar. Mas bastava entrar na casa, que rapidamente eu
me tornava contemporânea da Princesa Isabel e me vestia novamente à moda do
século XIX. Andando pela casa, inventava trejeitos, que na minha cabeça de
criança, pertenciam àquela mulher que eu havia me transformado, que atendia por
Sta Paula. Balançava meu leque fazendo reverência às estátuas que passavam por
mim e sorriam. Mas bom mesmo era quando participava das lindas danças dos
bailes que se formavam na minha imaginação. Acho que ficaria presa ao passado
por um tempo, procurando Isabel e Dom Pedro, se aquela escada escura que dava
acesso ao andar de baixo não prendesse minha atenção. Lá era proibido descer. O
que será que lá tinha?
Após sairmos da casa,
era a hora da foto. Todos nós ficávamos na grande escada em frente a casa para
eternizarmos aquele momento. E como a máquina ainda era de filme, só tinha jeito
de ver aquele pequeno recorte do dia depois de algum tempo. E já anoitecendo, o
cansaço nos vencia e a casa era o destino.
Hoje, quando vejo aquela
foto, pareço ainda como naquele dia, voltar ao passado. Porém, um passado menos
distante e que não possui o glamour dos tempos da princesa, mas não por isso é
menos sedutor. Transfiro-me para o dia daquela foto e tento resgatar aquela
gostosa sensação de infância, que em meu mundo minha família era o elenco, e
Juiz de Fora o palco. Palco da minha inocente e criativa imaginação e da minha
eterna lembrança de uma simples, mas gostosa felicidade.
* Paula Jenevain é estudante de comunicação e autora do livro "Complexo Cotidiano", a ser lançado pela Lei de Incentivo à Cultura Murilo Mendes.

Realmente era muito, se ele voltasse seria um dos primeiros da fila, me lembro de ir muitas vezes para Matias Barbosa. Realmente era muito bom, bons tempos!!
ResponderExcluirLindo texto... Emocionante a descrição do passeio!!!
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