quarta-feira, 27 de junho de 2012

Simples Felicidade


    Crédito - Sérgio Magalhães - Dezembro de 1994



Por Paula Jenevain Grazinoli


Todo mês de férias era aquela alegria. Porém, com certeza o dia mais esperado era aquele. Levantava-me de manhã, já empolgada a ajudar minha mãe na preparação dos quitutes, pois sabia que logo após o almoço, que seria um pouco mais cedo que o normal, meus primos e tias estariam nos esperando na Praça da Estação.
Só de encontrar aquela criançada toda, já era uma festa!  Nossa ansiedade era tamanha, que olhar o relógio da praça era regra. Quanto tempo será que ainda demoraria o Xangai?
E lá vem ele, sorrindo pra gente, com movimentos lentos, comparados aos dos veículos costumeiros da nossa geração. Mas era gostoso esperar ele chegar, crescendo cada vez mais nos trilhos, com seu barulho alto, parecendo nos convidar para uma aventura, assim como acontecia nos filmes que assistíamos no cinema Excelsior.
Naquele momento, os sorrisos dos meus primos se misturavam ao evidente encantamento das minhas tias. Parecíamos todos crianças. Enquanto os adultos falavam das lembranças que aquele trem lhes remetia, as crianças corriam para escolher seus lugares nos bancos dos vagões, virando os encostos para frente e para trás. Aquele encosto flexível era uma diversão! Só no Xangai dava pra sentar de frente ou de costas para a direção que o trem seguia.
Quando todos finalmente se acomodavam, era comum que eu fechasse meus olhos para escutar o barulho do trem. Entre buzinas e balanços, lá estava eu, com meu vestido da moda do século XIX, tomando chá em lindas xícaras de porcelana em estilo rococó, com toda a pompa do Xangai, a caminho da casa da minha amiga Princesa Isabel. “Olha lá, olá menino!” Eram meus primos acenando da janela para as pessoas da rua, fazendo-me voltar para a realidade.
E se o caminho era a diversão, mais feliz ainda todos ficavam ao lembrar que o passeio só estava começando. Descíamos na estação em frente ao Museu Mariano Procópio e já em meio as suas lindas árvores, seus simpáticos macaquinhos e seu imponente lago, achávamos o melhor lugar para estender uma toalha e fazer nosso piquenique. Não faltavam roscas, biscoitos e bolos embrulhados em pedaços de papel toalha.
Era já comum entre nós, depois do lanche, brincarmos que éramos parentes da princesa Isabel, e que na verdade, estávamos indo para sua casa tomar café. Era a casa da Tia Belinha! Virávamos íntimos daquele lugar. Mas bastava entrar na casa, que rapidamente eu me tornava contemporânea da Princesa Isabel e me vestia novamente à moda do século XIX. Andando pela casa, inventava trejeitos, que na minha cabeça de criança, pertenciam àquela mulher que eu havia me transformado, que atendia por Sta Paula. Balançava meu leque fazendo reverência às estátuas que passavam por mim e sorriam. Mas bom mesmo era quando participava das lindas danças dos bailes que se formavam na minha imaginação. Acho que ficaria presa ao passado por um tempo, procurando Isabel e Dom Pedro, se aquela escada escura que dava acesso ao andar de baixo não prendesse minha atenção. Lá era proibido descer. O que será que lá tinha?
Após sairmos da casa, era a hora da foto. Todos nós ficávamos na grande escada em frente a casa para eternizarmos aquele momento. E como a máquina ainda era de filme, só tinha jeito de ver aquele pequeno recorte do dia depois de algum tempo. E já anoitecendo, o cansaço nos vencia e a casa era o destino.
Hoje, quando vejo aquela foto, pareço ainda como naquele dia, voltar ao passado. Porém, um passado menos distante e que não possui o glamour dos tempos da princesa, mas não por isso é menos sedutor. Transfiro-me para o dia daquela foto e tento resgatar aquela gostosa sensação de infância, que em meu mundo minha família era o elenco, e Juiz de Fora o palco. Palco da minha inocente e criativa imaginação e da minha eterna lembrança de uma simples, mas gostosa felicidade.

* Paula Jenevain é estudante de comunicação e autora do livro "Complexo Cotidiano", a ser lançado pela Lei de Incentivo à Cultura Murilo Mendes.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Meia Noite na Marechal


Por Conrado Jenevain



Foi buscando sair da rotina e da voluntária clausura doméstica que ele resolveu ir ao cinema. Às cinco da tarde daquela terça-feira, descobriu na bilheteria que pelo preço de um ingresso assistia-se a dois filmes. A promoção fixava um intervalo de vinte minutos entre as duas sessões, de modo que ele só sairia dali por volta das dez e meia da noite; os filmes em cartaz eram longos. Julgou que seria um bom tempo de diversão e pagou os quatro reais promocionais, apresentando sua carteira de estudante. A sessão dupla estava marcada para às 6 horas, o que dava ao jovem uns cinquenta minutos de tédio na porta do cinema.
O céu azul e sem nuvens era de um calor extremo. As construções ao redor da fachada do cinema refletiam os raios solares de forma irritante, como se não houvesse um local imune a eles, mesmo no interior das lojas ou na sombra das marquises, visto que ali não havia a incômoda luz, mas o calor era infernal.
Pensou em como seria aliviante entrar na sala e sentir o frio glacial do ar condicionado, ainda que o frescor passasse a ser um problema depois da sensação inicial. Lá dentro, quando as luzes se apagavam, era como se ele entrasse em uma casa forte, uma fortaleza moderna. Por quatro reais se escondia de qualquer tempo ruim que houvesse lá fora, seja o calor escaldante ou uma chuva torrencial. E ainda assistiria a um bom filme. Não só do clima ele era protegido, mas também de qualquer problema que acontecesse fora daquela sala de cinema. Era quase como uma terapia. Antes mesmo dos trailers, desligava o celular e se alheava aos amigos, parentes e trabalho. Naquele instante, era ele e a tela. Os problemas que lhe interessavam agora eram os mesmos dos protagonistas, conflitos mais simples ou piores do que os seus, aqueles que foram colocados em espera quando desligou o celular. Chorava, ria, criticava, se indignava com as atitudes imorais do personagem vilão. Se o final era feliz e, a família ou um casal se abraçava, agradecia pelos seus próprios parentes e lembrava-se dos amigos. E o celular continuava desligado.
Era uma mania antiga sua esperar pela abertura das portas da sala e só entrar no momento em que o filme fosse de fato começar. Fazia isso porque sempre ia sozinho e lhe incomodava os olhares dos casais, que certamente pensavam: “pobre jovem, não tem ninguém e veio ao cinema sozinho”. Nem sempre era esse o motivo de ir sem companhia. Quase sempre tinha preguiça de arranjar um amigo ou amiga para o programa, uma vez que os filmes que assistia não eram dos mais cobiçados e tinha o costume de ir à tarde, horário em que as salas não enchiam.
Faltavam cinco minutos e já era a hora de entrar. Tocava Strauss e os seis únicos espectadores estavam todos sozinhos. Uma garota e quatro homens. O filme era bom, mas cansativo, e, depois dos vinte minutos de intervalo entre as sessões, só restaram na sala quatro pessoas, a garota foi uma dos que desertaram.
Às dez e trinta e cinco terminou a maratona e ele deixou o cinema. Lá fora, soprava um vento de chuva e a noite havia chegado sem ser percebida. Os letreiros nas fachadas brilhavam forte e a vida noturna ia ganhando forma. Preferiu não tomar ônibus e desceu a longa Avenida Rio Branco a pé. A fome e a vontade de ler o fizeram parar duas vezes no caminho. Na lanchonete gastou pouco tempo, mas foi na livraria que se deu conta de que já era tarde e sua mãe ligaria em breve o procurando. Chegando à esquina da Rua Marechal Deodoro, teve aquela sensação que sempre o invadia quando passava por ali naquele horário. O seu relógio marcava meia-noite e ele corria o risco de ser assaltado. Foi dobrando a esquina devagar e receoso de que algum indivíduo estranho o abordasse, mas o que viu passou longe de oferecer a ele algum perigo. O sentimento era de comoção. Sentada em um degrau, havia uma triste senhora moradora de rua com uma criança recém-nascida ao colo. Ela era gorda e tinha os cabelos desarrumados. O aspecto sujo e desnutrido da criança era incompatível com os cuidados que deveria receber um bebê naquela idade.
Embora a triste mendiga tivesse pedido a ele dinheiro, o choque foi tão grande que ele nem pôde avisá-la que não tinha nada, o que quase sempre dizia, mas que desta vez era verdade, já que as poucas moedas que lhe sobraram já estavam guardadas para a passagem.
Chegando ao ponto de ônibus, preferiu não olhar para trás. A imagem ainda estava viva em sua mente e era destruidora. Já não lhe importavam os bons momentos que tivera no cinema e nem o gosto do salgado que comera. Teve o rápido desejo de ter tomado um outro caminho e assim não ter visto aquela infortunada figura materna.
Pagou o trocador e sentou-se junto à janela. Olhava para fora, mas seu pensamento ia muito além. Pensou ter chorado ao notar uma gota no vidro em que estava encostado, mas era apenas o início de uma daquelas pontuais chuvas de verão. Lembrou-se do abrigo que significava para ele aquela sala de cinema e como tal fortaleza seria inacessível para aquela mãe e o filho vistos há pouco. Se não bastasse a falta de leito, teto e comida, ainda havia a chuva para dificultar. Procurou se distrair olhando a corrida de gotas na janela a seu lado, mas já estava na hora de descer. Preferiu não abrir o guarda-chuva e subiu ofegante o pedaço de morro até sua casa. Lá no alto, deu uma breve olhada para o centro da cidade, longe, iluminado, silencioso...
Em seu quarto, deitou-se para dormir. Procurou ler antes algumas matérias em uma revista esquecida sob sua escrivaninha, mas a imagem vista a pouco ainda era latente. Quem sabe no outro dia não a esqueceria?
Sem sono, lembrou-se de despedir de sua mãe e avisá-la que chegara. “Boa noite, meu filho. Chegou tarde”. Deu nela um beijo e antes de deixar o quarto, observou um quadro antigo que pousava acima da cabeceira da cama de casal. Nunca havia olhado com atenção para aquela imagem da Virgem Maria segurando o menino Jesus. Um bonito véu ornava a cabeça da santa mãe, enquanto as vestes do filho eram luxuosas e de uma cor solar. Era um bebê louro, de olhos claros e com bochechas rosadas. Toda esta beleza coroada com uma auréola em sua cabeça.
Lembrou-se do quadro vivo que presenciara à meia-noite na Marechal e lançou um último olhar para a Virgem e seu filho. “Tão diferentes...”, pensou consigo. Deitou-se e finalmente dormiu.


* Conrado Jenevain é estudante do Departamento de História da Universidade Federal de Juiz de Fora.

terça-feira, 12 de junho de 2012

Avenida Rio Branco: Do boulevard francês ao caos da Nova Juiz de Fora



Por Conrado Jenevain

"A Rua Direita, que principia neste largo e só termina lá no Alto dos Passos, é a mais importante da cidade. É tão larga como os "boulevards" de Paris, e mais extensa que qualquer deles. Tem importantes edificações, está bem arborizada de ambos os lados e perfeitamente nivelada, protestando assim contra o costume que há no Brasil de se chamar Direita à rua mais torta. Falta-lhe calçamento. Dêem-lho, ela será uma formosa avenida."

O texto acima, extraído de uma carta escrita por Artur Azevedo em 1888, foi "garimpado" por Dormevilly Nóbrega e publicado posteriormente na edição de 2010 da Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Juiz de Fora. Não são poucas as divertidas referências a uma Juiz de Fora do fim do século XIX, ainda sem iluminação elétrica, sem opções noturnas e com apenas quatro ruas, sendo a mais importante delas a Rua Direita.  Tal Rua Direita é nada mais nada menos do que a tão celebrada "maior avenida em linha reta da américa latina" - embora já tenha perdido esse posto - mas fato é que a Avenida Rio Branco talvez seja (ou pelo menos deveria ser) nosso grande trunfo turístico, uma vez que não é comum em cidades do interior de Minas ruas tão largas e abarrotas de opções comerciais (quem dera culturais) e, por assim dizer, também abarrotada de pessoas.

Observando o pequeno trecho da carta do irmão mais velho de Aluísio Azevedo, célebre escritor de "O Cortiço", percebe-se que àquela altura a Avenida Rio Branco só parecia ter um defeito: a falta de calçamentos. Imagino que quando finalmente calçaram a nossa "boulevard" juiz-forana ela tenha se tornado perfeita e digna de um título francês, mas a verdade é que com o tempo os problemas vão surgindo e parece-nos difícil de aceitar que aquela sutil Rua Direita tenha se transformado em um monstro que hoje é: a caótica Rio Branco.
Com exceção da Avenida Getúlio Vargas (que merece um post no futuro, pela sua, digamos...complexidade) a avenida que vai da Garganta do Dilermando até os confins do Alto dos Passos recebe o maior fluxo de veículos do centro da cidade, principalmente os ônibus urbanos e inacreditáveis caminhões bastante carregados. O cidadão que frequenta todos os dias a Rio Branco já deve ter se acostumado a escutar a todo momento a palavra "insuportável", que define com clareza a situação, principalmente para os que esperam ônibus urbanos no lugar, que agora conta com pontos quilométricos que só tornam a famosa "corridinha" até a condução uma maratona.

A proposta de uma "Nova Rio Branco", que por sua vez faz parte da "Nova Juiz de Fora", inserida no programa político do velho prefeito Custódio Mattos é a de reformular os pontos de ônibus que ocupam a pista central da avenida, exclusiva para o transporte público. Os pontos ganharam um novo aspecto que muito deve ajudar nos momentos de chuva intensa, mas fora isso, a sua extensão e localização ainda parece equivocada. São muitas as linhas, muitos os passageiros e pouca Rio Branco. A pretensa funcionalidade da obra não justifica sua megalomania e execução exatamente no ano de eleição para prefeito, o que de forma alguma confere legitimidade ao projeto. Aliás, ainda existe o fato de que a obra tenha atrapalhado os pedestres, já que é desnecessário comentar o completo equívoco nas novas instalações das faixas. Ficamos assim um pouco mais desejosos de melhorias do que Artur Azevedo, quando reclamava um simples calçamento para a nossa "boulevard" que, independentemente de ações políticas mal realizadas, continua sendo dolorosamente uma formosa avenida.

Conrado Jenevain é estudante do departamento de História da Universidade Federal de Juiz de Fora.

* Foto retirada do blog Maria do Resguardo.

A Gazeta

Relembrando os velhos tempos dos jornais descritivos, quase romanceados, que narravam com visão afiada a vida cotidiana de suas cidades, a proposta do Blog "A Gazeta Juiz-forana" é criar de forma bastante democrática um espaço para reflexões a respeito da Princesa de Minas. Em que Juiz de Fora vivemos e como vivemos? A "Gazeta" não pode existir sem a colaboração de escritores locais, dispostos a apresentar os seus pontos de vista a respeito da cidade em que vivemos. Inicio hoje a primeira postagem na esperança de que tenhamos certa periodicidade nas publicações, de modo que não haverá restrições quanto aos estilos literários de cada autor, sendo bem-vindos contos, crônicas, ou simples comentários como o que pretendo apresentar a seguir.

Para contato: conradojb@gmail.com

Um abraço!