Por Conrado Jenevain
Foi buscando sair da rotina e da voluntária clausura doméstica que ele resolveu ir ao cinema. Às cinco da tarde daquela terça-feira, descobriu na bilheteria que pelo preço de um ingresso assistia-se a dois filmes. A promoção fixava um intervalo de vinte minutos entre as duas sessões, de modo que ele só sairia dali por volta das dez e meia da noite; os filmes em cartaz eram longos. Julgou que seria um bom tempo de diversão e pagou os quatro reais promocionais, apresentando sua carteira de estudante. A sessão dupla estava marcada para às 6 horas, o que dava ao jovem uns cinquenta minutos de tédio na porta do cinema.
O céu azul e sem nuvens era de um calor extremo. As construções ao redor da fachada do cinema refletiam os raios solares de forma irritante, como se não houvesse um local imune a eles, mesmo no interior das lojas ou na sombra das marquises, visto que ali não havia a incômoda luz, mas o calor era infernal.
Pensou em como seria aliviante entrar na sala e sentir o frio glacial do ar condicionado, ainda que o frescor passasse a ser um problema depois da sensação inicial. Lá dentro, quando as luzes se apagavam, era como se ele entrasse em uma casa forte, uma fortaleza moderna. Por quatro reais se escondia de qualquer tempo ruim que houvesse lá fora, seja o calor escaldante ou uma chuva torrencial. E ainda assistiria a um bom filme. Não só do clima ele era protegido, mas também de qualquer problema que acontecesse fora daquela sala de cinema. Era quase como uma terapia. Antes mesmo dos trailers, desligava o celular e se alheava aos amigos, parentes e trabalho. Naquele instante, era ele e a tela. Os problemas que lhe interessavam agora eram os mesmos dos protagonistas, conflitos mais simples ou piores do que os seus, aqueles que foram colocados em espera quando desligou o celular. Chorava, ria, criticava, se indignava com as atitudes imorais do personagem vilão. Se o final era feliz e, a família ou um casal se abraçava, agradecia pelos seus próprios parentes e lembrava-se dos amigos. E o celular continuava desligado.
Era uma mania antiga sua esperar pela abertura das portas da sala e só entrar no momento em que o filme fosse de fato começar. Fazia isso porque sempre ia sozinho e lhe incomodava os olhares dos casais, que certamente pensavam: “pobre jovem, não tem ninguém e veio ao cinema sozinho”. Nem sempre era esse o motivo de ir sem companhia. Quase sempre tinha preguiça de arranjar um amigo ou amiga para o programa, uma vez que os filmes que assistia não eram dos mais cobiçados e tinha o costume de ir à tarde, horário em que as salas não enchiam.
Faltavam cinco minutos e já era a hora de entrar. Tocava Strauss e os seis únicos espectadores estavam todos sozinhos. Uma garota e quatro homens. O filme era bom, mas cansativo, e, depois dos vinte minutos de intervalo entre as sessões, só restaram na sala quatro pessoas, a garota foi uma dos que desertaram.
Às dez e trinta e cinco terminou a maratona e ele deixou o cinema. Lá fora, soprava um vento de chuva e a noite havia chegado sem ser percebida. Os letreiros nas fachadas brilhavam forte e a vida noturna ia ganhando forma. Preferiu não tomar ônibus e desceu a longa Avenida Rio Branco a pé. A fome e a vontade de ler o fizeram parar duas vezes no caminho. Na lanchonete gastou pouco tempo, mas foi na livraria que se deu conta de que já era tarde e sua mãe ligaria em breve o procurando. Chegando à esquina da Rua Marechal Deodoro, teve aquela sensação que sempre o invadia quando passava por ali naquele horário. O seu relógio marcava meia-noite e ele corria o risco de ser assaltado. Foi dobrando a esquina devagar e receoso de que algum indivíduo estranho o abordasse, mas o que viu passou longe de oferecer a ele algum perigo. O sentimento era de comoção. Sentada em um degrau, havia uma triste senhora moradora de rua com uma criança recém-nascida ao colo. Ela era gorda e tinha os cabelos desarrumados. O aspecto sujo e desnutrido da criança era incompatível com os cuidados que deveria receber um bebê naquela idade.
Embora a triste mendiga tivesse pedido a ele dinheiro, o choque foi tão grande que ele nem pôde avisá-la que não tinha nada, o que quase sempre dizia, mas que desta vez era verdade, já que as poucas moedas que lhe sobraram já estavam guardadas para a passagem.
Chegando ao ponto de ônibus, preferiu não olhar para trás. A imagem ainda estava viva em sua mente e era destruidora. Já não lhe importavam os bons momentos que tivera no cinema e nem o gosto do salgado que comera. Teve o rápido desejo de ter tomado um outro caminho e assim não ter visto aquela infortunada figura materna.
Pagou o trocador e sentou-se junto à janela. Olhava para fora, mas seu pensamento ia muito além. Pensou ter chorado ao notar uma gota no vidro em que estava encostado, mas era apenas o início de uma daquelas pontuais chuvas de verão. Lembrou-se do abrigo que significava para ele aquela sala de cinema e como tal fortaleza seria inacessível para aquela mãe e o filho vistos há pouco. Se não bastasse a falta de leito, teto e comida, ainda havia a chuva para dificultar. Procurou se distrair olhando a corrida de gotas na janela a seu lado, mas já estava na hora de descer. Preferiu não abrir o guarda-chuva e subiu ofegante o pedaço de morro até sua casa. Lá no alto, deu uma breve olhada para o centro da cidade, longe, iluminado, silencioso...
Em seu quarto, deitou-se para dormir. Procurou ler antes algumas matérias em uma revista esquecida sob sua escrivaninha, mas a imagem vista a pouco ainda era latente. Quem sabe no outro dia não a esqueceria?
Sem sono, lembrou-se de despedir de sua mãe e avisá-la que chegara. “Boa noite, meu filho. Chegou tarde”. Deu nela um beijo e antes de deixar o quarto, observou um quadro antigo que pousava acima da cabeceira da cama de casal. Nunca havia olhado com atenção para aquela imagem da Virgem Maria segurando o menino Jesus. Um bonito véu ornava a cabeça da santa mãe, enquanto as vestes do filho eram luxuosas e de uma cor solar. Era um bebê louro, de olhos claros e com bochechas rosadas. Toda esta beleza coroada com uma auréola em sua cabeça.
Lembrou-se do quadro vivo que presenciara à meia-noite na Marechal e lançou um último olhar para a Virgem e seu filho. “Tão diferentes...”, pensou consigo. Deitou-se e finalmente dormiu.
* Conrado Jenevain é estudante do Departamento de História da Universidade Federal de Juiz de Fora.
* Conrado Jenevain é estudante do Departamento de História da Universidade Federal de Juiz de Fora.

Muito bom! vou postar alguns contos se me permitir!!!
ResponderExcluirAdorei, Conrado! Muio bem escrito! Mas a partir de agora vc pode me chamar pra ir ao cinema no fim de tarde para ver filmes pouco comentados! Rs
ResponderExcluirBjs
Paula, será um prazer!
ResponderExcluirGustavo, fique a vontade, será uma honra!